Em meio a uma crise financeira sem precedentes, os Correios iniciaram a venda de imóveis por todo o Brasil, incluindo prédios, lojas e agências. Esta iniciativa revela um histórico de abandono e desperdício de dinheiro público, com muitos bens em estado precário. Um prédio comercial no Centro de São Paulo, por exemplo, de 5,4 mil m², está sem janelas, portas, divisórias, cheio de entulhos e com sinais de vandalismo, tendo lance inicial de R$ 7,2 milhões. Situação similar é encontrada em uma antiga agência em Porto Alegre e uma casa em Arneiroz, no Ceará, enquanto uma loja de 26 m² em Campo Grande também está à venda. Em contraste, um prédio comercial em Belo Horizonte, avaliado em R$ 8,3 milhões, encontra-se em boas condições.
Contexto Financeiro e Perspectivas do Leilão
Nos últimos seis anos, os Correios arrecadaram pouco mais de R$ 45 milhões com a venda de imóveis. O atual leilão abrange 26 prédios administrativos, terrenos, galpões, lojas e apartamentos funcionais, com a estatal esperando arrecadar R$ 1,5 bilhão até dezembro. Os leilões estão programados para os dias 12 e 26 de fevereiro, e 5 de março. Esta venda é parte do plano de reestruturação da empresa, que acumulou prejuízos significativos: R$ 700 milhões em 2022, R$ 2,5 bilhões em 2024 e R$ 6 bilhões nos primeiros nove meses de 2025, com uma projeção de rombo de R$ 10 bilhões para o ano de 2025. As receitas totais, que eram de R$ 19 bilhões em 2020, passaram para menos de R$ 21 bilhões em 2024, enquanto as despesas e custos saltaram de R$ 17 bilhões para R$ 23 bilhões em 2025, evidenciando um crescente desequilíbrio.
Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, considera a decisão de vender os imóveis acertada, mas avalia a expectativa de arrecadação dos Correios como irrealista, dado o estado de abandono dos bens e a desaceleração econômica. Ele sugere que a medida é apenas um "tapa-buraco" e que a privatização seria uma solução estrutural. Paulo Feldman, professor da USP, reforça que a gravidade da situação exige, além de uma drástica redução de despesas, uma mudança no foco do negócio, propondo a abertura do segmento de entregas de mercadorias para empresas privadas, visando garantir a agilidade necessária para o país, algo que os Correios, em sua condição atual, não conseguirão oferecer.
